Moeda de Salamina achada em Ashdod revela circulação de dinheiro no Mediterrâneo há 2.500 anos
Uma moeda de Salamina, cidade da costa oriental de Chipre, encontrada na praia de Ashdod, em Israel, ajuda a reconstituir a circulação de dinheiro no Mediterrâneo Oriental há cerca de 2.500 anos. A peça, datada de meados do século 5º a.C., pesa cerca de 11 gramas e pertence ao tipo conhecido como siglos. Segundo a Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA), é o primeiro exemplar desse tipo identificado em território israelense.
A moeda foi encontrada por Avi Chaprak, vice-diretor do Departamento de Praias de Ashdod, durante uma busca por objetos perdidos por frequentadores. Ele entregou a peça à IAA, que encaminhou o achado para análise de seus especialistas. O pesquisador e curador Yanniv David Levy identificou a moeda como um exemplar raro de Salamina.
A análise revelou uma característica pouco comum à primeira vista. Embora pareça uma moeda de prata, a peça tem núcleo de metal comum coberto por uma fina camada de prata. Essa técnica é conhecida como fourrée, termo usado para moedas com revestimento de metal precioso sobre um núcleo de menor valor.
O que a moeda mostra
O anverso apresenta um carneiro reclinado, voltado para a esquerda. A figura também aparece no reverso, na forma de uma cabeça de carneiro dentro de um quadrado incuso, ou seja, uma área rebaixada na superfície da moeda.
O reverso traz ainda um ramo de louro e três sinais da escrita silábica cipriota. A combinação desses elementos identifica a peça com a tradição monetária de Salamina e reúne referências culturais presentes na ilha durante o período persa.
O carneiro é o principal elemento figurativo da moeda. Já a presença da escrita cipriota fornece uma referência direta à cultura local. O ramo de louro acrescenta outro elemento à composição, associado à tradição grega.
A moeda, portanto, não é apenas um meio de pagamento. Seus desenhos e sinais registram a autoridade de quem a produziu e a identidade da comunidade que a colocou em circulação.
O peso e o metal
Com aproximadamente 11 gramas, a peça se aproxima do padrão de peso associado ao siglos do período persa. A identificação do metal, porém, modifica a leitura inicial do objeto: não se trata de uma moeda feita integralmente de prata.
O revestimento metálico é especialmente importante para a análise da peça. Segundo a IAA, a escassez de prata em Chipre contribuiu para o uso desse tipo de fabricação na cunhagem do período.
A moeda mostra, assim, que a produção monetária não dependia apenas da disponibilidade de prata. As oficinas precisavam também responder às condições econômicas da época.
O fato de o revestimento ainda preservar a aparência prateada ajuda a explicar por que a peça poderia ser aceita em circulação. Seu aspecto externo correspondia ao de uma moeda de metal precioso, embora seu interior fosse diferente.
Uma moeda que escapou do corte
Outro aspecto chama a atenção dos especialistas. Grandes moedas de prata do período persa muitas vezes eram cortadas em partes menores para pagamentos baseados no peso do metal.
Esse material fragmentado é conhecido como hacksilber. A prática fazia com que uma peça monetária pudesse perder sua forma original e funcionar, na prática, como uma quantidade de prata pesada para determinada transação.
A moeda encontrada em Ashdod, porém, está completa. Essa condição aumenta o interesse do achado, segundo Levy, porque exemplares inteiros desse tipo são pouco comuns em contextos arqueológicos.
A integridade da peça também preserva todos os elementos que permitem sua identificação: o carneiro, a cabeça do animal, o ramo de louro e os sinais da escrita cipriota.
De Salamina para o Levante
Salamina ocupava uma posição estratégica no Mediterrâneo Oriental. Sua localização, na costa oriental de Chipre, favorecia a ligação marítima com diferentes pontos do Levante.
A presença da moeda em Ashdod fornece uma evidência material dessa circulação. A especialista em moedas cipriotas Evangeline Markou, do Centro Nacional de Pesquisas Helênicas, em Atenas, afirmou que moedas de Salamina circularam amplamente pelo Mediterrâneo Oriental, mas que achados com procedência bem documentada são menos comuns.
A descoberta não permite, por si só, determinar quem levou a moeda até Ashdod ou em qual transação ela foi usada. O local, porém, reforça a existência de contatos entre Chipre e a costa do atual Israel durante o período persa.
A moeda também registra a condição política de Chipre no século 5º a.C. A ilha estava sob domínio persa, mas seus reinos locais mantinham espaço para administrar assuntos internos e emitir moedas.
O valor arqueológico
O principal interesse da peça está na combinação entre estado de conservação, origem identificável e local de descoberta. O exemplar reúne informações sobre metalurgia, sistema de pesos, iconografia, escrita e circulação monetária.
O achado também amplia o conhecimento sobre a presença de moedas cipriotas no Levante. Até sua identificação em Ashdod, não havia registro conhecido de um exemplar desse tipo em Israel.
A moeda não prova, isoladamente, a existência de uma rota comercial específica. Ela acrescenta, porém, uma evidência concreta ao conjunto de dados arqueológicos sobre a circulação de pessoas, mercadorias e dinheiro entre Chipre e o Levante.
Para a numismática, o estado de conservação é igualmente relevante. Uma moeda fragmentada ou desgastada poderia perder parte dos elementos usados para determinar sua origem. Neste caso, a peça preserva a composição visual necessária para o estudo.
A análise futura da composição metálica poderá acrescentar novos dados. Técnicas não destrutivas, como a fluorescência de raios X (XRF), podem ajudar a determinar a composição do núcleo e do revestimento de prata.
Mais do que uma moeda perdida na praia, o siglos de Salamina é um registro material de como dinheiro, símbolos e identidades circulavam pelo Mediterrâneo Oriental há cerca de 2.500 anos.