Crédito: Classical Numismatic Group Inc., CC BY-SA 3, via Wikimedia Commons.
Uma moeda cunhada na Antiguidade continua a marcar o sistema financeiro do Afeganistão. O selo do Da Afghanistan Bank, banco central do país, traz no centro a imagem de um tetradracma do rei greco-bactriano Eucrátides I, governante do século 2º antes de Cristo em uma região que hoje corresponde ao norte afegão.
Criada em 1939, a instituição adotou como emblema o reverso da moeda, no qual aparecem os gêmeos Castor e Pólux, personagens da mitologia grega, representados como cavaleiros armados com lanças. Ao redor da cena, uma inscrição em grego antigo proclama: “ΒΑΣΙΛΕΩΣ ΜΕΓΑΛΟΥ ΕΥΚΡΑΤΙΔΟΥ”, expressão traduzida como “Do grande rei Eucrátides”.
A escolha do símbolo ocorreu em um momento decisivo da história do país. Sob o reinado de Mohammed Zahir Shah, o Afeganistão buscava consolidar instituições estatais e se apresentar ao mundo como uma nação moderna. A criação de um banco central fazia parte desse esforço, assim como o resgate de um passado anterior ao Islã para sustentar uma narrativa histórica mais ampla.

O reino greco-bactriano surgiu após as conquistas de Alexandre, o Grande, e floresceu entre os séculos 3º e 2º antes de Cristo. Governado por dinastias de origem grega, o território tornou-se um ponto de encontro entre culturas do Mediterrâneo, da Pérsia e da Ásia Central. Eucrátides I, que governou entre cerca de 171 e 145 a.C., foi um dos soberanos mais poderosos desse período, responsável por campanhas militares e pela emissão de moedas de grande valor simbólico e artístico.
A imagem escolhida para o selo do banco central não remete apenas ao poder militar. Na mitologia grega, Castor e Pólux simbolizam proteção e vitória. Para os idealizadores do emblema, a moeda funcionava como prova de que o território afegão já havia integrado, no passado, um sistema político e econômico sofisticado, com circulação monetária e vínculos internacionais.
Ao longo das décadas, o símbolo atravessou profundas transformações políticas. Permaneceu durante o fim da monarquia, a proclamação da república, o regime comunista, a guerra civil dos anos 1990, a presença militar estrangeira e o retorno do Talibã ao poder, em 2021.
A presença do tetradracma ganhou maior visibilidade a partir de 1979, quando o governo comunista decidiu retirar símbolos religiosos das cédulas. A solução foi destacar o selo do banco central, considerado um emblema histórico e laico, aceitável em um Estado oficialmente socialista.
Desde então, a moeda grega aparece de forma padronizada nas notas afegãs, geralmente no canto superior direito. Mesmo após a volta do Talibã, grupo conhecido pela rejeição a imagens figurativas, o desenho foi mantido. A decisão é vista por analistas como pragmática, já que alterar cédulas e identidade visual do banco implicaria custos elevados em meio à crise econômica.
O contraste chama atenção. Em um país marcado por conflitos recentes e por disputas em torno do patrimônio cultural, um símbolo de origem helenística segue como marca oficial da autoridade monetária. Mais do que um detalhe gráfico, o selo revela como o Afeganistão recorre a camadas profundas de sua história para afirmar continuidade institucional em meio à instabilidade política.